Mostrando postagens com marcador album review. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador album review. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

[Album Review] Estado de Poesia


O Estado de Poesia, de Chico César, é fruto da crise por que passamos o público e o artista. Diante da atual conjuntura estético-musical, caracterizada por canções de mau gosto dedicadas a tratar de temas rasteiros por meio de uma linguagem pobre e depreciativa, o trabalho do cantor e compositor paraibano é um grito de lucidez no quarto sem vida que é a música popular no Brasil de hoje. Há exceções, obviamente – como os discos Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), de Otto, e Chão (2011), de Lenine; mas a maior parte do que se produz é a consolidação de uma proposta antipoética, que contraria os objetivos da MPB de cinquenta anos atrás.

A ideia que alicerça nossa música popular – e que é ignorada pelos compositores das “pisadinhas” e “tchê-rê-rê-tchê-thês” – é sua interpenetração com a arte escrita; e Chico César (como sempre fez em sua carreira) a alcança com glória. A canção que dá nome ao disco é um dos mais belos poemas da literatura contemporânea. Seus versos são uma transposição para o estado de elevação evocado. Reparem-se nos trechos abaixo a riqueza da linguagem com que se descreve a poesia que emana daquele que ama, a maneira como se aborda a esquizofrênica complexidade da paixão, a sonoridade das aliterações e das rimas:

Para viver em estado de poesia
Me entranharia nestes sertões de você

[...]

Chega tem vez que a pessoa que enamora
Se pega e chora do que ontem mesmo ria
Chega tem hora que ri de dentro pra fora
Não fica nem vai embora
É o estado de poesia

Ao tempo em que trata do amor de forma profunda e enlevada, Chico também o faz de maneira bem humorada e lúdica, percebida não só pela escolha do vocabulário, como também pela melodia alegre (que reforça o significado da palavra “arenguêra”) da canção Palavra Mágica.

Meu coração de novela
Só quer você, minha vida

Arenguêra

O Estado de Poesia é uma obra de arte. E, enquanto arte, fala desta de forma primorosa, por meio de uma metapoesia dedicada à problemática da inspiração, realização e apreciação do objeto artístico. Essa metapoesia é responsável por dar forma ao pensamento provocador de todo o trabalho de Chico César, que brinca com os sentidos e constrói um linguagem própria, como na canção Museu, cujo conteúdo semântico reproduz o sentimento invocador da arte que conceitua todo o álbum.

Musa eu sou seu museu
Do jambo pendurado no jambeiro
E se sonha passa pássaro e balança baloiça


O racismo é outro tema presente, não só neste álbum, mas em toda a criação de Chico César – a exemplo das clássicas Mama África (Cuscuz Clã, 1996) e Respeitem Meus Cabelos, Brancos (Respeitem Meus Cabelos, Brancos, 2002). Assim como subverte os sentidos na assimilação que fez da composição de Herivelto Martins (“Respeitem ao menos meus cabelos brancos”), associa termos sonoramente parecidos para denunciar o preconceito racial sofrido cotidianamente pelos negros, (violentamente) destituídos de sua própria negritude.

Negam que aqui tem preto, negão
Negam que aqui tem preconceito de cor
Negam a negritude, essa negação
Nega a atitude de um negro amor

A linguagem de Chico é, assim, técnica e intuitiva. Um ímpeto criativo que se confunde com a realidade do homem a ponto de recriá-la, modificá-la; seja numa zona de transcendência do eu, como na canção Da Taça, seja na apresentação de uma peça em que nossos vícios são colocados à mostra, como em No Sumaré (inspirada na Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa). Enquanto na primeira, a poesia de Chico se propõe a divagar pelo (in/sub)consciente, através de imagens inexatas (“Ninguém vem, suponho é um sonho meu”), a segunda tece uma dura crítica social, disfarçada pela uso que se faz da palavra (“E hoje só resta a praça vazia/Onde na noite fria o cachorro do rico faz o seu pipi”).


O poeta paraibano fecha o disco com um manifesto contra o “agrebiz”, como o autor chama o agrobusiness num dos versos de Reis do Agronegócio. A canção é uma enxurrada de verdades escondidas pela grande mídia, para a qual o “agro é tudo”. Esse é, talvez, o ponto alto do disco, o clímax de sua narrativa, uma catarse de 11 minutos. Objetivo e atual, Chico vai fundo nos problemas naturais, sociais e econômicos trazidos pela indústria agropecuária, através de um cruzamento de referências que resgata a história recente do ruralismo no nosso país; como a alusão à ex-Ministra da Agricultura Kátia Abreu, conhecida como miss desmatamento (“Pobre tem mais é que comer com agrotóxico/Povo tem mais é que comer se tem transgênico/É o que acha, é o que disse um certo dia/Miss motosserrainha do desmatamento”) e ao constante debate entre ecologistas e os que defendem esse sistema de exploração.

Vocês me dizem que o brasil não desenvolve
Sem o agrebiz feroz, desenvolvimentista
Mas até hoje na verdade nunca houve
Um desenvolvimento tão destrutivista
É o que diz aquele que vocês não ouvem
O cientista, essa voz, a da ciência
Tampouco a voz da consciência os comove
Vocês só ouvem algo por conveniência

Estado de Poesia é, enfim, um rico e belíssimo trabalho, que transita entre a leveza e a dor do ser, marcado pelo sotaque nordestino e negro de Chico, que em mais de 20 anos de carreira tem nos presenteado com canções que são de encher os olhos e fazer dançar a noite inteira. Chico César é #MúsicaNasOiça!

Willy Nascimento Silva

terça-feira, 23 de maio de 2017

[Album Review] Transa


Gravado no exílio londrino de Caetano Veloso, Transa é o quinto álbum de estúdio do cantor e compositor baiano. Lançado em janeiro de 1972, o disco, que conta com a incrível banda formada por Áureo de Souza (baixo) Jards Macalé (guitarras) e Tutty Moreno (bateria e percussões), além da voz cortante de Gal Costa, presente em alguns trechos, reproduz com profunda beleza o estranhamento/deslumbramento de ser injetado numa (e ter injetado em si uma) cultura estrangeira, manifestada, sobretudo, pela mistura das línguas inglesa e portuguesa nos versos que compõem o disco. E, na medida em que é transformado pela informação que recebe, Caetano modifica o mundo em que está inserido.

Já na primeira faixa, You Don’t Know Me, ele finca os pés em sua brasilidade múltipla, caracterizada pela cultura popular que é, muitas vezes, negligenciada em função de um estereótipo de Brasil que os “gringos” julgam conhecer. A miscigenação que define nosso povo e arte é reforçada pela referência à letra de Hora do Adeus, de Luiz Gonzaga, que alude à grandeza do território brasileiro e suas diferentes regiões.

You don't know me
Bet you'll never get to know me

[...]

Eu agradeço ao povo brasileiro
Norte, centro, sul inteiro
Onde reinou o baião

Um dos versos em que essa interpenetração de linguagens se faz mais presente está na canção Nine out of Ten: “I'm alive and vivo muito vivo, vivo, vivo”. Aqui, a simultaneidade das expressões brasileira e estrangeira é explicitada num continuum que transcende as barreiras idiomáticas.


Triste Bahia é uma canção-colagem. Caetano cria um espaço onde o barroco de Gregório de Mattos encontra o popular das cantigas de roda. Nesse ponto, a influência da estética antropófaga, baseada na catalisação do(s) (múltiplos) outro(s), é latente. O poema do Boca do Inferno continua resistindo ao tempo, reverberando ainda nos dias atuais e “modernizando o passado”, como diria Chico Science.

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante…
Estás e estou do nosso antigo estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim abundante

[...]

Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vai embora…


A influência das canções de domínio público se manifesta também na faixa It’s a Long Way. Novamente, Caetano cruza versos em inglês com excertos de música popular brasileira, desta vez, estabelecendo uma relação com a cultura pop internacional, representada pelas canções dos Beatles, à época já canonizados.

Woke up this morning
Singing an old, old Beatles song

A única canção do disco não composta por Caetano Veloso é Mora na Filosofia, de Arnaldo Passos e Monsueto Menezes, que, com o arranjo de Macalé, ganhou um som meio “samba-blues”.

Em Neolithic Man, fica evidente a influência psicodélica dos anos 1970, relatando experiências de contato com Deus, compreensão do tempo e percepção da vida.

God spoke to me
From inside the newstone one day
You're my son
And my eyes swept the horizon
Away

O disco fecha com um blues ao estilo de J.B. Lenoir. Nostalgia (That's What Rock'n'roll Is All About) tece uma crítica à rebeldia fugaz do rock ‘n’ roll, muitas vezes dedicado à autoafirmação de sua ideologia libertária em detrimento de reflexões mais profundas a respeito da sociedade e do mundo.

You just feel faintly proud when you hear they shout
Very loud, "You're not allowed in here, get out"
That's what rock'n'roll is all about

Transa é, enfim, uma das obras-primas da música internacional. Seja pela riqueza melódica que dá aos versos de Caetano um efeito de imunidade ao tempo, seja pela sustentação de uma estética própria, capaz de apresentar ao mundo um Brasil ainda incógnito.

Caetano Veloso é #MúsicaNasOiça.

Willy Nascimento Silva

quarta-feira, 29 de março de 2017

[Album Review] The Dark Side of the Moon

Lançado em março de 1973, The Dark Side of the Moon, da banda britânica Pink Floyd, é um dos álbuns mais importantes da história da música. Temas como o consumismo, a loucura, o tempo e a morte compõem o conceito dessa obra-prima do rock progressivo. O disco é um "processo" de imersão do ouvinte numa dimensão que tenta sintetizar a complexidade humana, seus vícios e excentricidades. A icônica capa, criada pelo designer Storm Thorgerson, que traz um prisma atravessado por um feixe de luz, simboliza esse processo.


No estudo de óptica, o prisma serve para "decompor" raios luminosos. Essa definição física e o conceito do álbum convergem em sentido quando compreendemos o efeito estético proposto: a decomposição do caráter. A arte da capa representa, assim, a subjetivação daquilo que está escondido sob a camada mais aparente das relações do homem com "o outro" – e consigo.

Essa decomposição (e dissecação) do caráter se manifesta através da poética que fundamenta as letras compostas pelo grupo inglês. Em Breath, por exemplo, a rotina do "homem comum", alienante na medida em que desconsidera as individualidades em favor de uma coletividade uniformizada, cujo objetivo comum é sufocado diariamente pela fugacidade do tempo e liquidez daquilo que se almeja, aparece como denúncia ao mecanicismo instaurado pela modernidade.  O homem é, então, animalizado, destituído de sua capacidade de agir conscientemente, enquanto caminha lentamente rumo ao vazio.

Run, rabbit, run
Dig that hole, forget the sun
And when at last the work is done
Don't sit down
It's time to dig another one

For long you live and high you fly
But only if you ride the tide
And balanced on your biggest wave
You race towards an early grave


A temática do tempo é retomada em Time. Desta vez, dialogando com a concepção de movimento e mudança da filosofia heraclítica de que "ninguém entra num mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas já serão outras". Embora na canção o elemento da natureza – indicador da dinamicidade irretroativa do tempo – seja concebido como imutável ("The sun is the same") – visto que a trajetória da terra em torno do sol representa uma constante para a contagem dos dias – essa imutabilidade é relativizada ("in a relative way") – pois,  a natureza é subjetivamente percebida e experienciada pelo homem, que passa a compreender a morte como uma questão de tempo.

The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death

A morte, que em Time é concebida como consequência da passagem do tempo, é retomada em The Great Gig in the Sky, faixa instrumental composta por Richard Wright famosa pelos vocais arrepiantes de Clare Torry. Segundo relatos, Roger Waters teria sugerido a Clare que ela improvisasse pensando na morte; três takes depois teríamos aquele que é um dos momentos mais belos do álbum.


A ideia da racionalidade alienante da contemporaneidade é recuperada em Money; desta vez, reforçada pelo dura crítica ao consumismo. Os versos chamam atenção pelo modo como é tratada a busca do homem pelo sucesso financeiro, capaz de representar a motivação única da vida moderna.

Get a good job with more pay and you're okay


O dinheiro ocupa, assim, um espaço central não só na cultura de consumo apregoada pelo capitalismo, como também na constituição dos caráteres, sobrepondo-se às noções de ética e de moral.

Money, it's a hit
Don't give me that do goody good bullshit

A poética que baseia a primeira parte do disco está fundamentada no tom irônico utilizado para manifestar a desconstrução das identidades e a instauração de uma lógica racional-materialista. Em Us and Them, diferentemente, o sujeito-lírico é consciente da condição estéril da humanidade.

And after all we're only ordinary men

A partir desse insight, a percepção crítica da realidade começa a causar perturbações no homem, crivado pelos dilemas trazidos pela modernidade: o avanço tecnológico, as relações de mercado, as guerras, a esquizofrenia decorrente da consolidação do poder oficial e seus meios de manipulação das massas.

The lunatic is on the grass
Remembering games and daisy chains and laughs
Got to keep the loonies on the path

The lunatic is in the hall
The lunatics are in my hall
The paper holds their folded faces to the floor
And every day the paper boy brings more

O ideal do senso comum é, então, subvertido, deixando se revelarem os vícios de um mundo baseado na superficialidade das aparências. As imperfeições do homem e sua efemeridade são postas à mostra, analisadas por um viés (prisma) inalienante, uma olhar lúcido capaz de enxergar os desvios de caráter, as mazelas, o lado ruim das pessoas, capaz de ver "o lado escuro da lua".

And everything under the sun is in tunn
But the sun is eclipsed by the moon


Willy Nascimento Silva